Produção
e apresentação Jornalista e Radialista JOÃO UMBERTO NASSIF
Transmitido
pela RÁDIO EDUCADORA DE PIRACICABA AM 1060KHERTZ
aos sábados
das 10:00 às 11:00 horas da manhã.
Contato
com João Umberto Nassif :e-mail:joao.nassif@ig.com.br
Entrevistado:
Benedito Onofre Siviéro
Com
absoluta exclusividade Benedito Seviéro concedeu essa entrevista á Rádio
Educadora de Piracicaba e aos Jornais Tribuna Piracicabana, Tribuna de Rio das
Pedras e Tribuna de São Pedro. Extremamente reservado, apesar de ser muito
assediado pela chamada “grande imprensa”, tanto escrita, falada e
televisionada, Benedito mantém-se longe dos holofotes, ao contrário dos inúmeros
ídolos que interpretam suas composições. Cantores como João Paulo e Daniel,
Chitãozinho e Chororó, Cristian e Ralf, Gian e Giovani, Joaquim e Manoel,
Teodoro e Sampaio, Milionário e José Rico, Mato Grosso e Matias, Duduca e
Dalvan, Gilberto e Gilmar, César e Paulinho, Tibagi e Miltinho, Belmonte e
Amarai, Lourenço e Lourival, Pedro Bento e Zé da Estrada, Trio Parada Dura, Peão
Carreiro e Zé Paulo, Zico e Zéca, Zilo e Zalo, Rudy e Roney, Wellinton e
Willian, Jad e Jefferson, Preferido e Predileto. Esses são alguns dos
interpretes de suas mais de mil músicas compostas por Benedito Siviéro. Sem
nenhum exagero podemos dizer uma grande parte da população brasileira um dia
ouviu pelo menos um trecho de uma de suas composições. Afável, simples,
Benedito fala com a naturalidade do seu trabalho: traduzir as emoções dos corações
apaixonados, algo que faz com a maestria própria dos grandes gênios. Sua fala
direta, carregada de emoções traduz os sentimentos que só os apaixonados
entendem! Benedito Seviéro é com absoluta certeza a razão de sucesso de
muitos artistas brasileiros! Algumas
das suas obras: A mancha do pecado (c/ Biguá) •
A
marca da traição (c/ Zalo) •
A
volta do seresteiro (c/ Zalo) • Abandono
(c/ Paiolzinho) •
Abismo
da dor (c/ Nízio) •
Abismo
da vida (c/ Palmito e Jaime Marques) • Abismo
de ilusões (c/ Sulino e Marrueiro) • Aliança
(c/ Pedro Bento) •
Aliança
abençoada (c/ Zalo) • Alma
aventureira (c/ Luiz de Castro) • Alma
de boêmio (c/ Tião Carreiro) • Alma
inocente (c/ Zalo) • Amarga
confissão (c/ Zalo) • Amargura
(c/ Miltinho Rodrigues e Zeza Dias) • Amor
em segredo (c/ Basílio) • Aproveita
Minha Gente (c/ Ronaldo Adriano) • Cachorro
amigo (c/ Luiz de Castro) • Canção
da madrugada (c/ Sebastião Aurélio) • Confissão
(c/ Miltinho) •
Confissão
de boêmio (c/ Sereno) • Desengano
(c/ Tião Carreiro) • Desse
jeito não vai dá (c/ Corumba) • Deusa
da madrugada (c/ Sebastião Victor) • Drama
da vida (c/ Flor da Serra) • Escuta
minha canção (c/ José Vito) • Espelho
da vida (c/ Paiolzinho) • Esperança
perdida (c/ Osvaldo Galhardi) • Espuma
de cerveja (c/ Toni Gomide) • Falsos
carinhos (c/ Pirassununga) • Flor
da boêmia (c/ Zalo) • Flor
da lama (c/ Paiolzinho) • Flor
proibida (c/ Miltinho Rodrigues) • Foi
um sonho (c/ Benedito da Silva) • Homem
de bem (c/ Luiz de Castro e Sulino) • Ingratidão
(c/ Luiz de Castro) • Luz
vermelha •
Mágoa
cruel (c/ Zé do Carro) •
Meu
crescimento (c/ Sebastião Aurélio) • Meu
regresso (c/ Antonio Mariani) • Minha
mágoa, minha dor •
Mula
granfina (c/ Pirassununga) • Mulher
de ninguém (c/ Paiolzinho) • Mulher
dos meus sonhos (c/ Joel da Costa Leite) • Mulher
inocente (c/ Zilo) • Negócio
de sócio (c/ José Felipe) • O
destino não quis o nosso matrimônio (c/ Miltinho Rodrigues) •
O
dinheiro compra tudo (c/ Luiz de Castro) • O
mesmo amigo (c/ Rocha de Menezes) • O
silêncio do seresteiro (c/ Zalo) • Palavra
de honra (c/ Ronaldo Adriano e Rosa Quadros) • Pião vira-mundo (c/ Campanha) •
Pranto
amargo (c/ Miltinho) •
Preço
da traição (c/ Zalo) • Primeira
ilusão (c/ Vicente de Oliveira) • Queixumes
de amor (c/ Zé da Estrada) • Rainha
da traição (c/ Sebastião Victor) • Rainha
do meu coração (c/ Barrinha) • Recado
mortal (c/ Goiá) •
Regresso
de boêmio (c/ Paiolzinho) • Rei
da capa (c/ Pirassununga) • Remorso
(c/ Jeca Mineiro) •
Rescisão
de contrato (c/ Sulino) • São
João Batista (c/ Vieirinha) • Sentenciado
(c/ Nízio) •
Serenata
do adeus (c/ Nascimento Filho) • Seresteiro
do amor (c/ Leôncio/Leonel) • Sistema
antigo (c/ Teddy Vieira) • Sombra
do passado (c/ Zilo) • Sonho
de amor (c/ Teddy Vieira) • Taça
da dor (c/ Nízio) •
Taça
da saudade (c/ Miltinho) • Taça
vazia (c/ Miltinho) • Tango
da meia-noite (c/ Zilo) • Tango
da traição (c/ Zalo) • Toalha
de mesa (c/ Luiz de Castro) • Triste
caminho (c/ Miltinho) • Última
noite (c/ Zalo) •
Vestido
branco (c/ Ronaldo Adriano e Mangabinha) • Violão
amigo (c/ Zilo) Em seu repertório predominam as canções rancheiras, tangos e
guarânias. Suas composições foram gravadas por diversos intérpretes, entre
os quais Tião Carreiro e Pardinho, Zilo e Zalo, Zico e Zeca, Campanha e
Cuiabano, Tibagi e Miltinho, Sulino e Marroeiro, Chitãozinho e Xororó, Chico
Rey e Paraná e Sérgio Reis, entre outros.
Teve sua primeira composição gravada em 1953, "Pião vira-mundo",
moda campeira composta com Campanha e gravada pela dupla Campanha e Cuiabano. Em
1958 compôs com Zalo o cateretê "A volta do seresteiro", gravado
pela dupla Zilo e Zalo no primeiro disco gravado por essa dupla. Em 1959, compôs
com Paiolzinho a guarânia "Flor da lama", gravada por Zé Tapera e
Paiolzinho, e com Nízio compôs a rancheira "Abismo da dor" gravada
por Pedro Bento e Zé da Estrada.
Em 1960, compôs com Zalo o tango "Alma inocente" e a canção
rancheira "Última noite", gravadas por Zilo e Zalo. No mesmo ano,
compôs com Tião Carreiro o tango "Alma de boêmio", gravado por Tião
Carreiro e Pardinho, e com Teddy Vieira a guarânia "Sonhos de amor",
gravada por Tibagi e Miltinho. Em 1961, teve gravadas, entre outras, as composições
"Amargura", canção rancheira, em parceria com Miltinho e Zeza Dias e
gravada por Tibagi e Miltinho, "Sentenciado", corrido em parceria com
Nízio e gravado por Leôncio e Leonel e "Confissão de boêmio",
corrido feito em parceria com Sereno e gravado pelo Trio Aliança. Ainda nesse
ano, fez sucesso com o tango "Taça da saudade", com Miltinho gravado
pela dupla Tibagi e Miltinho.
Em 1962, teve diversas composições gravadas pela dupla Zilo e Zalo, entre as
quais "Remorso", canção rancheira feita com Jeca Mineiro, "Meu
regresso", tango com Antônio Mariani e "Serenata do adeus",
toada com Nascim Filho. Em 1963, Caçula e Marinheiro gravaram a canção
rancheira "Meu crescimento", de parceria com Sebastião Aurélio, e
Zilo e Zalo gravaram o "Tango da traição", de parceria com Zalo. Em
1964, Silveira e Barrinha lançaram a valsa "Rainha do meu coração",
de parceria com Barrinha e Zilo e Zalo gravaram de sua parceria com Zalo o
carrilhão "Aliança abençoada".
Em 1986, Chitãozinho e Xororó gravaram dele e Luiz de Castro, "O dinheiro
compra tudo". Em 1988, Lourenço e Lourival gravaram dele e Luiz de Castro,
"Cachorro amigo" e "Toalha de mesa". No mesmo ano, Gian e
Giovani gravaram dele e Toni Gomide "Espuma de cerveja". Em 1991, o
Trio Parada Dura lançou "Palavra de honra", dele, Ronaldo Adriano e
Rosa Quadros, e "Vestido branco", dele, Ronaldo Adriano e Mangabinha.
Em 1993, teve a música "Negócio de sócio", com José Felipe gravada
por Sérgio Reis na BMG.
Em 1999, teve as músicas "A marca da traição", com Zalo; "Violão
amigo", "O silêncio do seresteiro" e "Mulher
inocente", com Zilo; "O mesmo amigo", com Rocha Menezes;
"Meu regresso", com Antonio Marani, e "Sombra do passado",
relançadas no CD "Raízes sertanejas" com os sucesso da dupla Zilo e
Zalo, da gravadora EMI. Em 2001, sua composição "Aproveita Minha
Gente", com Ronaldo Adriano foi destaque na voz da dupla Chico Rey e Paraná.
Senhor Benedito Onofre dos Santos qual é a sua idade?
Dia
20 de outubro eu fiz 74 anos. Sou nascido em uma cidade próxima a Araraquara
chamada Boa Esperança do Sul. Eu tenho o privilégio de ir mudando de ares
conforme desejo. Moro em São Paulo, em Santo André, fico uns tempos em Boa
Esperança, fico uns tempos na casa de Moisés Augusto aqui na cidade de Rio das
Pedras, fico uns tempos também em Itapetininga na casa de outros amigos. Meu
pai e minha mãe morreram, eu fiquei sozinho, não tenho família, gosto mais de
andar, não ficar parado em um lugar só!
Sou solteiro, nunca me casei! Fico em Londrina, Campo Grande, Goiânia, a maior parte do tempo tenho permanecido em Piracicaba. Conheci a família do Moisés Augusto, sua esposa Dona Isabel, Garcia, Cezar e Paulinho. O Craveiro e o Cravinho eu já conheço há muito tempo! O Evaldo Augusto da imprensa é um grande amigo. São pessoas com quem estabeleci um laço de amizade e respeito que são muito importantes em minha vida.
O senhor toca algum instrumento?
Não toco nenhum instrumento. Só escrevo as letras das músicas. Comecei a trabalhar na música em 1950 com 19 anos de idade. Meus pais sempre trabalharam na roça. Em 1956 eu já tinha desenvolvido um bom trabalho na música, trouxe-os então para São Paulo. Na época eu tinha 27 anos de idade.
Como o senhor descobriu a música?
Quando eu morava na roça, em Boa Esperança, eu já escrevia na escola. Gostava de escrever poesias, sempre me interessei por isso! Aos 16 anos de idade comecei a escrever alguma coisa! Mas na época não conseguir gravar porque morava na roça.. Só em 1950, quando fui para São Paulo é que consegui gravar. Eu fazia as letras, e mandava para um amigo chamado Teddy Vieira, um compositor muito famoso que infelizmente faleceu, ele gravava com as duplas e punha o meu nome e o dele como compositores. O Teddy gostava muito das minhas composições.
O tema principal das suas letras qual era?
Sempre o romantismo. A rotina do casal não feliz. Se você escrever uma musica do casal feliz que vive nas mil maravilhas não tem comércio! Para a música ser comercial tem que ser do casal infeliz que vive entre tapas e beijos!
O Senhor foi namorador?
Nunca fui! Exagerado não! Fui normal.
Para ter inspiração tem que ter um pouco de desilusão?
Eu faço as músicas observando as desilusões alheias! Desde a primeira musica que eu fiz, “Seresteiro da Lua”, “Taça da Dor”, “Flor da Lama”, “A Mulher de Ninguém” “Alma de Boêmio” todas essas músicas eu fazia das desventuras alheias, baseando na vida de alguém. Quando você faz uma música, ela pode ser sua, intima, mas ela bate uma grande parcela da sociedade!
O senhor morava aonde nessa época?
Morava em Santo André.
O senhor gostava de freqüentar a noite?
Não freqüentava não! Ás vezes devido ao trabalho, eu trabalhava em circo, levava as duplas, ás vezes ficávamos uma parte da noite em atividade, mas a noite toda não! Eu levava as duplas para se apresentarem no circo, naquele tempo não tinha esses cachês que existem hoje, essas festas do peão, essas festas de exposição, então naquele tempo era só circo. O artista era muito bem tratado. Só que não tinha quase nenhum lucro! Você ia para um circo trabalhar na base de cinqüenta por cento da renda, da bilheteria, se chovesse você perdia tudo! Hoje o Zezé de Camargo e Luciano, Chitãozinho e Chororó, Daniel, Leonardo, Bruno e Marrone que trabalham comigo até hoje, ele já vão cantar com o dinheiro no bolso!
Quaissão os artistas mais conhecidos do grande público que o senhor trabalha diretamente?
Eu tenho aqui um CD que comemora 50 anos de música, é uma homenagem que a gravadora fez para mim. Aqui têm os artistas que gravaram as minhas músicas, não todos porque eu gravei mais de 1000 músicas! Benedito passa a relatar alguns dos grandes nomes da música brasileira. Não consta neste CD nomes de cantores como Tibagi e Miltinho, Belmonte e Amarai, Lourenço e Lourival, Pedro Bento e Zé da Estrada, Trio Parada Dura, Tião Carreiro e Zé Paulo, Zico e Zéca, Zilo e Zalo, Silveira e Barrinha, Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho. Gravei com todos eles!
Qual foi a primeira música que “estourou” no mercado?
Foi o “Seresteiro da Lua” com Pedro Bento e Zé da Estrada no ano de 1950.
O senhor lembra um pedacinho dela?
Lembro-me sim! Abre janela! Oh! Querida /Venha ver o luar cor de prata/Venha ouvir o som deste meu pinho/Na canção de uma serenata.Coisinha antiga!
De onde saiu essa inspiração?
Um cara estava fazendo uma serenata no interior eu era moleque, e fui assistir a serenata, ele foi cantar para a moça na janela mais ela não saiu então eu fiz essa música!
O senhor se lembra de um pedacinho da música Taça da Dor?
Muitas
mulheres me querem/ Mas não adianta, há somente uma que eu amo na vida... são
coisinhas românticas. Depois gravei com Tião Carreiro e Pardinho “Alma de Boêmio”.
Quando vinha o pagamento do direito autoral, de três em três meses, hoje é diferente, você recebe todos os meses. Vinha um dinheiro grande de três em três meses.
Naquele tempo vinha mais dinheiro para o compositor?
Dez vezes mais! Não existia pirataria! Hoje a pirataria tomou conta de tudo!
A sua composição “Boate Azul” é um sucesso muito grande?
Ela está re-gravada em 70 países, tem na França, na Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, na Dinamarca, vem dinheiro para mim do mundo inteiro! Não Um dinheirão, os brasileiros que vivem lá pedem pela internet, agora mesmo me telefonaram dizendo que estava tocando em Londres! Eu tenho ela gravada com uns 80 artistas!
O
senhor pode relembrar um pedacinho dela?
Doente de
amor procurei remédio na vida noturna com a/Flor da noite em uma boate aqui na
zona sul, a dor do/Amor e com outro amor que a gente cura, vim curar a/Dor nesse
mal de amor na boate azul e quando a
Noite/Vai se agonizando no clarão da aurora os Integrantes da/Vida noturna se
foram dormir e a dama da noite que estava/Comigo também foi embora , fecharam
se as portas/Sozinho de novo tive que sair, sair de que jeito, se nem/Sei o rumo
para onde vou muito vagamente me lembro/Que estou em uma boate aqui na zona sul
eu bebi Demais/E não consigo me lembrar se quer qual é o nome/Daquela mulher a
flor da noite na boate azul.
Aonde o senhor buscou inspiração para realizar essas composições?
Foi na situação
dos outros. Eu tinha um amigo que amanhecia bêbado na porta da boate. Ele era
apaixonado por uma mulher dessa boate. Ele ficava lá esperando ela sair. Só
que ia bebendo, ia bebendo, na hora de sair não agüentava mais, então na hora
de ir embora ele ficava lá caído na porta da boate. É ai que ele fala:
“sair de que jeito, se nem/Sei o rumo para onde vou muito vagamente me
lembro/Que estou em uma boate aqui na zona sul eu bebi Demais/E não consigo me
lembrar se quer qual é o nome/Daquela mulher a flor da noite na boate azul”.
Todas essas composições que o senhor fez são baseadas em fatos reais?
Cada composição
é um caso que aconteceu com alguém, não comigo! (risos).
Fazer amizade com o senhor é meio perigoso?
Não.
Porque? Se você tiver um passado limpo, não farei musica sua! Eu faço musica
só de quem tem um passado de muitas paixões incontrolados.
O senhor acha que o homem vive
em função das paixões?
A maioria
vive em função das paixões! Se você contar, dos 6 bilhões de habitantes da
Terra, mais da metade é apaixonado!
O homem o senhor acha que vive por dois motivos: pela paixão e pelo
dinheiro?
Exatamente!
Por mulher e dinheiro! Não tem nem dúvida. Alimentação é uma coisa necessária,
isso ninguém vive sem. Mas o dinheiro e a mulher são as molas mestras do
mundo!
Em todos esses casos que o senhor descreve o senhor se considera um relator
das histórias?
De fato eu
sou um mensageiro da paixão alheia. Seja de homem ou de mulher! Contando uma
história sem por o nome de ninguém! É uma história que pode ser a da metade
da população do mundo!
Alguma vez alguns dessas personagens disse ao senhor:- Como é que você fez
uma música desse jeito?
Tem muitos
casos! Só o Som de Cristal que eu gravei com o Joaquim Manoel. E m São Paulo
tem uma Boate chamada Som de Cristal, mas eu não fiz a letra pensando nela! Fiz
pensando na orquestra que tocava musica estridente como se fosse um som de
cristal. O dono da boate me processou dizendo que eu estava usando nome da boate
dele para fazer sucesso. A letra dizia: “a casa noturna, boate falada, lugar
de má fama”, e ele achou ruim porque ele queria que eu dissesse: “a casa
noturna, boate afamada, boate de fama”. (Letra: A casa noturna/se mantém a
noite/em clima de festa/De longe e ouve/vários instrumentos/de cordas e metal/
Boêmios bebendo/cantando e dançando /ao som da orquestra/Um som estridente/que
lhe deu o nome /de Som de Cristal/A casa noturna/boate falada/lugar de má
fama/Com as portas abertas/durante a noite/entra quem quiser/Porém essa
noite/Sem que eu esperasse/Entrou uma dama/Fiquei abismado/Porque se tratava
da minha mulher/(refrão)/Ela se cansou/de dormir sozinha/esperando por mim/E
nessa noite/resolveu dar fim/A sua longa e maldita espera/Ela não quis
mais/levar a vida de mulher honrada/Se na verdade/não lhe adiantou nada/ser
mulher direita/conforme ela era/Ela decidiu/abandonar o papel de esposa/para
viver entre as mariposas/Que fazem ponto /naquele local/E a minha vida/muito
mais errante/agora continua/Transformei a esposa/em mulher da rua/A mais nova
dama /do Som de Cristal.
O senhor para fazer suas composições chegou a fazer um trabalho de
pesquisa?
Não. Eu
conhecia histórias nos ônibus, nas emissoras de rádio, ouvindo os colegas
cantando, ás vezes por uma música você tira outras duas ou três. Pelo
assunto de uma musica você inventa outro assunto! Cria um novo assunto! Pela
Boate Azul eu fiz Som de Cristal, que é uma seqüência mais que ninguém sabe
que é uma seqüência!
O senhor chegou a fazer letra de música em guardanapo?
Em
guardanapo não! Na cabeça eu faço, depois passo a limpo em casa. Nos ônibus,
de São Paulo para Piracicaba, ou de São Paulo para Araraquara, no caminho
encontro muitos temas para fazer musicas.
Qual é o melhor lugar, qual é a melhor hora para criar?
Eu não tenho! Se você me pedir para fazer uma musica ali
agora eu sento ali e faço! Também não tenho mais esse negócio de inspiração,
eu faço pela pratica! É só achar um tema e faço pela prática. Sou como um
profissional de qualquer área. No começo era tudo por intermédio de inspiração, de fazer aquela concentração
como se fosse uma meditação. Agora faço na base de industrialização!
Industrializou-se a música! O artista sempre gosta de por no estilo dele. Com o
César e Paulinho eu gravei umas oito músicas, mas eu deixei eles fazerem a
vontade, o que fica bem para eles, porque são eles que irão cantar. A música
tem a cara do artista. Daniel canta o romântico. Teodoro Sampaio cantam mais
musica dançante. Milionário e Zé Rico são românticos a bessa. Duduca e
Dalvam também eram românticos. Cezar e Paulinho são criadores de tudo, são
versáteis a bessa.
O Senhor se lembra de uma música chamada “Jorginho do Sertão”?
“O
Jorginho do SertãoRapazinho de talento Numa carpa de café/Enjeitô treis
casamento/Logo veio o seu patrão/Cheio de contentamento/(tenho treis filhas
"sorteira que/ofereço em casamento)/Logo veio a mais nova/vestidinho cheio
de fita/Jorginho case comigo/que das treis/sô a mais bonita/logo veio a do
meio/vestidinho cor de prata/Jorginho case comigo/ou então você me mata/logo
veio a mais veia/por ser mais interesseira/Jorginho case comigo/sou a mais
trabaiadeira/Jorginho pegou o cavalo/ensilhô na mesma hora/foi dizê pra
morenada/adeus que eu já vou me/embora/Na hora da despedida,/AiAiAi/é que a
morenada chora/AiAiAi/O Jorginho arresorveu/é melhor que eu mesmo suma/não
posso casá cum as treis, aieu num caso cum nenhuma”. Cornélio Pires foi o
pioneiro. Quando eu cheguei em São Paulo só tinha 4 duplas de nome: Torres e
Florêncio; Serrinha e Caboclinho, Palmeira e Luizinho e Tonico e Tinoco. Depois
tinha outras duplas menos famosas, como o Brinquinho e Brioso, Leonardo e Cunha
Junior. Eu cheguei em São Paulo em
1950, a vida inteira eu fui compositor. Fui morar em Santo André. Foi ai que
fiquei conhecendo o Ariowaldo Pires, que era o Capitão Furtado! Ele me disse
que tinha um tio que deu o ponta-pé inicial na musica! Aí então fiquei
conhecendo Cornélio Pires! Tiete, Piracicaba , Sorocaba e Botucatu são os berços
da musica sertaneja. Com vários artistas daqui como Mariano e Caçula, Serra,
Parafuso, Mandi e Sorocabinha. Issso começou em 1929. Cornélio Pires era
alegre, expansivo, companheirão, ele era uma patente, juntava as duplas todas
da região e levava para gravar. Naquele tempo só tinha duas gravadoras! A
Continental e a RCA Victor. Ele levava 10 a 12 pessoas para gravar. Não tinha
gravadora em São Paulo, era só no Rio de Janeiro, então ele pegava o trem no
Brás ia para o Rio de Janeiro, gravava, aquele tempo era só duas musicas por
disco. Ia bem ensaiadinho, chegava lá, gravava e voltava. Na podia errar! Se
errasse estragava o disco. Hoje em dia está muito mais fácil, até eu sou
capaz de chegar lá e gravar! Eu não
me lembro muito do Parafuso, porque ele morreu faz 32 anos, mas ele era
espetacular. Aqui em Piracicaba tinha uma seleção de repentistas bons! Nhô
Serra, Pedro Chiquito. Em Piracicaba eu só gravei com Garcia e Zé Matão e
Cesar e Paulinho. O Craveiro e Cravinho antes formavam a dupla Manico e Maneco!
(risos)
O
compositor brasileiro diz que compor no Brasil não dá dinheiro, isso é
verdade?
O compositor
de uma música, de duas, três ou até de dez
ganha pouco. Eu tenho muitas músicas. Tenho mias de 1000 musicas
compostas, sendo que umas 300 estão em atividade.Rendendo um pouquinho cada
uma.
O senhor é o maior compositor brasileiro atualmente?
Eu me considero entre os 10 maiores compositores brasileiros. Tiro chapéu para José Fortuna, Teddy Vieira, Anacleto Rosa Junior, Lourival dos Santos, Moacir dos Santos, Goiá, foram os novos, como César Augusto, Zezé de Camargo, Elias Muniz, Joel Marques, Randall. No estilo de musica antiga, que tinha aqueles dramalhões eu fui um dos pioneiros, eu, o Teddy, o José Fortuna, o Goiá (Gerson Coutinho da Silva)
O senhor acha que a qualidade da música melhorou ou piorou?
Eu acho que
melhorou. Não a qualidade em si da letra. A qualidade da melodia melhorou. A
qualidade da letra você tem que acompanhar. Hoje em dia você não pode mais
fazer a letra de uma história que o pessoal não grava mais. Então você tem
que acompanhar.
Tem muita gente que faz sucesso com a música apelativa? O senhor já fez
alguma música com letra mais maliciosa?
Já fiz.
Contra a minha vontade, mas comercialmente fui obrigado a fazer. Mulher Boa de
Teodoro e Sampaio. Têm várias músicas assim. “Essa noite eu pinto aí” é
uma música apelativa, não fala palavrão, ela é maliciosa, induz. Normalmente
é tocada em baile. É mais em bailão.
O senhor tem algum hobby, além da música?
Gosto muito
de pescar. Mas não sou bom pescador.
Pescando o senhor se inspira? Tem alguma música que fale de peixe?
Pescando a gente
se inspira. Mas não tenho nenhuma música que fale de peixe. Já pesquei no Rio
Piracicaba. Mas não fiz nenhuma musica para o Rio Piracicaba. Para bater aquela
musica do Lourival dos Santos e Piraci é muito difícil! O
rio de Piracicaba Vai jogar água prá fora! O que é isso! O Craveiro e
Cravinho têm outra também muito bonita. Não tem jeito de fazer musica melhor
que a deles e para fazer pior eu não faço!
Quanto tempo o senhor leva
para compor uma música?
Ás vezes eu faço uma
musica em duas horas, as vezes demora uma semana! Depende! Tem que se achara as
palavras adequadas, primeiro eu faço o rascunho, depois vou procurando a
substituição de uma frase até chegar a um ponto em que ela esteja comercial.
O senhor já fez composição
até em fila de banco?
(risos) Ah!
Já! Mas já fiz diversas músicas!
O senhor pretende fazer uma música para Rio das Pedras?
Preciso ir
á prefeitura, pegar os dados da cidade, vamos estudar o assunto!
O senhor toca algum instrumento?
Não. Só faço
a letra da música mesmo! O Romantismo não está acabando, antigamente existia
muito mais sentimentalismo! A modernidade tomou conta. A paixão é uma coisa
eterna. Eu escrevo música para crianças, jovens, terceira idade, quarta idade!
O senhor gosta de dançar?
Não. Mas
gosto de escrever musica de dança! Musica de bailão eu escrevo muito!
Qual é a sensação do senhor ver o pessoal dançar uma música escrita
pelo senhor, ou ouvir uma música de sua autoria?
Isso se
torna um caso até meio chato! Quantas vezes eu estou andando no ônibus e
escuto o cara cantando minha musica! Você acha que eu vou chegar nele e dizer
essa musica é minha! Não tem cabimento! Em todas as casas noturnas que eu
chego eles cantam Boate Azul! Eu vou chegar lá e falar que essa música é
minha! É chato não é? O pessoal quando descobre que sou o autor fica curioso
demais! Principalmente quem esta assistindo! Quem está cantando não é tanto.
Quem
está assistindo vem perguntar porque o senhor fez aquela musica?
Ai é que
está o meu problema! Eu chego em Boa Esperança o povo está cantando a minha música.
Vou para Araraquara estão cantando, chego aqui estão cantando. Se eu chegar lá
chega aquele monte de perguntas. Você sabe que eu tenho problema auditivo,
operei agra melhorei um pouco.
O senhor é uma pessoa extremamente reservada, está sempre sendo assediado
para comparecer em programas em rede nacional. Qual o motivo dessa sua reserva?
Eu sou uma
pessoa de uma certa idade, a minha imagem não tem mais interesse para a televisão.
Eu acho que não. Esse é o meu problema de achar. Acho que se chegar na televisão
o povo irá dizer: - O que esse velho ta enchendo o saco ai! Eu tenho medo do
ridículo. O Ratinho cansou de me chamar. A artista Inesita Barroso, quantas
vezes ela quis me homenagear como compositor, e eu não fui. Eu gosto dela
barbaridade, gosto do Ratinho Barbaridade!
O Fustão mandou um recado por intermédio do Bruno e Marrone, para que
eu vá lá. Não fui ao Gugu. Não fui ao Raul Gil. Gostaria de ir, mas se
tivesse uma imagem condizente!
A sua formação musical é natural?
É natural.
Não estive estudo nenhum, só o quarto primário. Tudo o que eu sei foi através
da escola do mundo. Da vivência.
Qual foi a música que lhe deu mais satisfação?
É difícil
numerar uma só porque eu tive mais de 50 musicas que me deram prestigio. A mais
famosa é Boate Azul.
Existe alguma música que o senhor fez e não gostaria de ter feito?
A
maioria! (muitos risos). Tem uma que se eu pudesse apagar eu apagava, foi Alma
de Boêmio. Tem uma palavra que eu não uso mais. Tirei do vocabulário. Naquele
tempo era
“A
minha sorte foi tirana e deslinda estou sofrendo por amar quem não me quer/Isto
acontece para/um homem que acredita que existe amor no coração duma mulher/Por
mais que eu queira esquecer o meu passado meu sofrimento e viver pensando nela/E
os amigos só para me ver magoados quando me encontra vem me dar noticias dela/Só
tenho as ruas e a bebida como herança essa mulher me deu esse maldito prémio/E
hoje dela só me resta uma lembrança a torturar a minha alma de boêmio/Embriagado
passo as noites pelas ruas ninguém tem pena deste meu triste viver/Olhando ao céu
quanto contemplando a luz da lua me representa a sua imagem aparecer/Foi o
desgosto que atirou-me nesta vida abandonado e renegado pelo mundo/Eu vivo
sempre naufragado na bebida tornei-me apenas um boêmio vagabundo/Perdi amigos
perdi tudo que já tive em altas noites só o sereno me abraça/Essa mulher na
mesma rua ainda vive bebe com outro a brindar minha desgraça/Declamado voz
mulher/Se hoje vive mal trapilho pela rua/A culpa é toda tua não soubeste me
conservar/E por vingança hoje eu bebo nesta taça/A brindar tua/desgraça na
mesa deste bar/Declamado voz homem/Segue, segue bebendo que eu continuo vivendo
assim/E quando chegar meu fim que eu partir deste mundo/Ais de lembrar com
saudade que já foi para eternidade/Eu boêmio vagabundo/Foi o desgosto que
atirou-me nesta vida abandonado e renegado pelo mundo/Eu vivo sempre naufragado
na bebida tornei-me apenas um boêmio vagabundo/Perdi amigos perdi tudo que já
tive em altas noites só o sereno me abraça/Essa mulher na mesma rua ainda vive
bebe com outro a brindar minha desgraça”
O senhor conviveu com muita gente famosa, como Inesita Barroso, Airton e
Lolita Rodrigues, Adoniran Barbosa, Caçulinha. Demônios da Garoa. O que você
acha desse pessoal?
Conheci
Inesita Barroso quando ainda era cantora, é um amor de pessoa! Um ser humano
espetacular!. O Airton e a Lolita tinham o programa Almoço com as Estrelas. O
Caçulinha é filho do Caçula, conheço ele há muito tempo.Eu gostava muito do
Arnaldo do grupo Demônios da Garoa.Adoniran Barbosa, o Charutinho, a gente se
encontrava na Sociedade dos Autores e tínhamos bastante amizade, sempre foi
sarrista. Waldilk Soriano é muito bom.
Francisco Alves, o Chico Viola o senhor
conheceu?
Ele
morreu no ano de 1952, eu tinha 21 anos. Foi uma tristeza muito grande.
E
Nelson Gonçalves?
Nelsão
era gente fina, ele era romântico, mas morava no Rio de Janeiro. Eu não tinha
muito contato com ele. A gente se encontrava na gravadora. Era terrível falar
com ele, ele era gago para falar! Cantando não!